A lei da diversão

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foto: Renné Carvalho

Era incenso? O cheiro agradável não era dos melhores, poucos odores distraiam, mas a situação exigia uma fuga e a porta de saída mental encontrada para evitar os olhares foi questionar o primeiro estímulo que o mundo provocou, neste caso o cheiro. Se fosse incenso arriscaria um odor, não me recordo o nome, mas creio que alfazema era o odor que mais se assemelhava com o perfume reinante.

Era perfume? Não, talvez um hidratante. Provavelmente se fosse no meu corpo eu sentiria com mais facilidade. Comparar com alfazema seria atribuir qualidades que aquele odor não tinha, por isso desisti de tentar examinar as características balsâmicas e quis perguntar aos colegas, já familiarizados com o local, a origem da fragrância. Seria menos constrangedor perguntar, contudo quem se importaria com a procedência do cheiro ambiente?

Perguntei. A resposta não foi tão agradável quando eu gostaria. “Gelo seco”, repeti mentalmente aquilo. O que seria um gelo seco? Um outro estado da água para além do sólido? Se fosse isso pecaram na divulgação da descoberta, pois, assim como eu, haveriam outras pessoas que desconheciam a novidade, tratada pelos nativos como algo comum.

Certo, foi falta de atenção não associar o excesso de fumaça ao odor, mas munida desta informação deu até para entender o motivo do uso da substância. O ar, embora contaminado pelo odor, ganhava um aspecto sombrio e mágico. Pensando bem, nas partes não alcançadas pela fumaça os feixes de luzes e lasers cortavam o vazio, já nos espaços dominados pela fumaça as cores escorriam e tingiam o ar. Era o ambiente ideal para quem não gostava de ser visto.

Tentei algumas vezes puxar assunto, era simplesmente impossível. Existia uma barreira invisível que me apartava de todos do grupo, talvez uma barreira de interesses. Por isso, diante do bombardeio dos lasers e da minha incapacidade de quebrar a minha compostura fui guiada pelo espirito da massa, como a diferente eu deveria tentar readaptar-me. Era mesmo preciso se movimentar? Soltei a pergunta jocosa tentando obter alguns risos, arrependi-me da brincadeira, prestei atenção que, por mais bobas e rasas que fosses as brincadeiras gerais, elas sempre eram aceitas, entretanto tinha algo nas minhas palavras que não agradavam os colegas e era nitidamente perceptível.

O silêncio veio como defesa, não tinha outra opção, tentei burlar minha própria percepção, fingir que não era real a cara de desaprovação dos colegas, tentei por fim rir das piadas. Apostei mover meu corpo, mesmo sem saber como, tentei, fui além dos meus limites para conseguir uma aproximação. Não funcionou.

O que era preciso para se divertir? Não da minha forma, pois a minha forma para todos era a forma errada e a forma de todos era inacessível porque eles não me viam sendo aquilo que eles eram. Eu me tornei uma estrangeira sem nação preso dentro de um corpo alheio num ambiente hostil. Senti-me um cacto sem ter noção da existência dos próprios espinhos. Um cacto entre as rosas. Seria essa a ocasião prometida nas abstrações matemáticas que finalmente me forçaria a usar uma equação do segundo grau para resolver esse paradigma do contato humano?

A música invadiu meus pensamentos, era uma composição simples, nada complexo, algo que beirava a falta de criatividade e mesmo assim era aceito pelas melhores mentes. Era dançante, justificavam. Não julguei, aceitei, adotei o novo repertório e mesmo assim por algum motivo eu fui considerada o erro. Se nada funcionou como ferramenta de encaixe, talvez eu estivesse no lugar errado, mas antes de concluir, por precipitação, a hipótese da alteridade, tentei encontrar um lugar equivalente nesse universo das diversões. Seria um espaço neutro, cujas diferenças se anulariam.

Ignorei o odor e as luzes, pulei freneticamente como um dos nativos. Aquilo era diversão? Aparentemente sim. Há um manual não escrito que define a forma de se divertir, qualquer desvio é considerado doença. Nem sei exatamente porque entrei na boate, porque aceitei o convite, mas decidi experimentar o novo.

Fui engolida pela multidão que estava enlouquecida e imersa no frenesi das músicas. Distanciei-me dos colegas, mas por algum motivo, obra do acaso ou destino, deparei-me com o grupo que, sem ter controle da minha localização, discorreram abertamente sobre os meus defeitos. Invadi a privacidade deles, na surdina da multidão, permitindo-me escutar alguns ultrajes e questionamentos sobre o meu jeito de ser. Descobri o prazer da espionagem. Silenciei.

Legislaram uma forma de agir. Categorizaram uma forma de rir. Engessaram expressões, emoções e reações. Ao final da sentença guardei as acusações no lugar do bom-senso e deixei-me guiar pelo fluxo da noite. Questionei-me por algum tempo porque eles sairiam com alguém que não agradava e depois de não obter respostas deixei o pensamento evaporar da minha mente. Se me perguntassem uma qualidade eu diria que sou mestra em ignorar as dores, vivencio o sofrimento até certo ponto e depois deixo aquilo morrer.

Esbarrei-me subitamente noutro corpo, eram olhos semelhantes, eram lábios fugitivos e, assim como eu, estavam ali pelo acaso. Nos divertimos do nosso próprio jeito, longe do caos, encontramos no outro um lar e um abraço leal. Se diversão tem lei, burlamos todos os artigos. Saltamos da curva dos normais e criamos uma brecha na regra, um vazio particular chamado respeito.

Autor: Alisson Carvalho

 

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