As pedras que mudam, de Lazarus SIlvestre

Pedras no caminho

Há tempos não andava pelas ruas do meu bairro. Teve promessa de chuva, mas foi às cinco. O céu nublado no quintal, um tom amarelo desbotado, uma fotografia bem mal iluminada. Foi uma suspeita suficientemente verdadeira. Não choveu.

Duas ou três pessoas na rua, andando até a esquina, roupas passadas: ele gravata e botão fechado até os punhos; ela vestido e laço na cabeça. Carregavam bíblias embaixo dos braços.

As ruas com meia iluminação da luz de postes. Eram três passos no escuro, três passos na luz amarelada e incandescente. O medo de, aqui ou ali, topar uma pedra pontiaguda.

O movimento era constante, entre carros e outros barulhos – poucas pegadas, poucos pés ao chão arrastando chinelos. Mais buzinas, freios, faróis desordenados, deixando sombras e deformações no asfalto.

Ao longe, a torre e o crucifixo vermelho. A igreja com som de sinos e multidões povoando calçadas, as portas – é fácil supor bancos amarrotados. A igreja é uma lembrança, uma mancha também; é um canto que não se abandona a melodia. (Soube de alguém que saltou da torre. Ela havia partido também. Tem tempo, é verdade, mas ainda ali sua voz entre colunas e molduras).

As ruas ainda com a mesma textura, os mesmos defeitos e temperatura, sempre esquentando sob os pés.

As mesmas praças, as mesmas árvores, o mesmo cheiro de vapor quente e barro; o cheiro de noite de domingo. Na central, aquele cheiro e o gosto de gordura fritando no céu da boca. As barracas de pastel, as cadeiras brancas e mesas de ferro com emblemas de cervejas. As pessoas, sozinhas ou em bandos, movendo mandíbulas, acumulando saliva nas bochechas, sentindo a textura morna de massa, o óleo a escorrer entre dentes e o calor do sabor.

Lembro aquela vez na chuva quando o chão ainda úmido e enlameado, eu atravessando sem mistérios, pisando nas calçadas molhadas; lembro os encontros e refúgios, dos abraços nos bancos, da Coca-cola naquela mesa de ferro, tocando gramas com o calcanhar.

O que mudou?

Mais luz, pessoas a mais, uma loja nova na esquina, crianças que brincam ali nos jogos e playground – ele bem pequeno com dificuldade para guiar, talvez sabendo que é difícil levar a vida sem medo – e a grama bem cortada agora.

Vejo que as pedras não mudaram, estão no mesmo lugar. Estão gastas, velhas com o tempo.

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