A cor da banalidade

Era tudo branco: mesa de jantar, cadeiras, porcelana, uma parede desbotada que o tempo poupava uma parte e um canto. Naquela manhã, viu o gato de pelos brancos, com o seu bigodinho pincelado por um leite…

Passava um café, via a TV na banca de mármore branco da cozinha: Nos E.U.A, numa das avenidas de Nova York, as pessoas formavam filas para celebrar um evento tradicional naquela cidade de mundos e vidas. A menos de um dia da virada do ano a população encaixotava ou guardava em sacolas tudo aquilo de que queria se livrar. Pessoas com papéis pagos em impostos, velhas revistas, livros, fotografias ou velhas promessas, eram entulhados aos montes, e os cidadãos jogavam seus embrulhos num imenso tambor de lixo que devia ser incinerado ali mesmo na rua. Devia-se livrar de todo peso e calo daquele ano ruim, uma queima que revitalizava e um fogo de esperanças.

Nada na sua cozinha era digno do imenso tambor, ela pensava, vendo a fumaça que saia aos céus, a TV crepitando naquela desova dos dessabores.

Ela era uma mulher branca. Casou-se de branco numa igreja do bairro, com chão branco de poeira. Um ipê enorme de flores brancas – muito da estação – no terreno deserto no cercado árido da igreja.

O marido sai do banho direto para a mesa. Usava uma blusa branca, de sapatos brancos e um avental posto ao ombro. O nosso expediente funcionava normal entre o natal e ano novo, por isso, cedo ia tomar aquele café, a contra gosto, a mulher trazendo frituras do fogão, ele engolindo – tinha de abrir o açougue antes do patrão.

Um langor branco na cara daquele homem enfastiado. “Trabalhar enquanto todos viajam para a praia”, dizia, com boca cheia.

A TV de nuvens brancas, naquele céu azul de NY, a mulher segurando o pote de açúcar branco cristalino. Um pouco de leite também para aquele homem na sua frente.

“Poderia queimar essa xícara de um branco desbotado”, disse. Imaginou a peça se contorcendo no fogo, ela se livrando daquilo que era velho e gasto na sua casa.

“Quê?”, o marido perguntava. A expressão branca do seu rosto. O leite branco derramado sobre a mesa, a calça, os sapatos. Uma mancha branca no chão, o gato beijando os pés da cadeira.

Ele tocou o cabo branco de uma faca. Ela esgueirava-se atrás de sua geladeira branca descascada.

Aquela distração desconcertante, mas clara, alva, agora destoante, pintada em vermelho.

“Bela história”, disse o chefe. Duas folhas de papel nas mãos. “Mas ainda é preciso cortar”.

O jornalista fez um bolo de papel, as letras misturando-se em um monte seco. Lixo. Uma folha apenas.

“Ainda é demais”, disse o editor.

O jornalista rasgou ao meio. “Está bom?”.

“Temos só uma coluna”, apressou-se o editor. “Esse foi um ano de muitas estatísticas”, disse secamente.

Então, ficou uma nota. Assim:

Mulher é assassinada com dez facadas, pelo marido, em véspera de ano novo. O crime aconteceu na residência do casal, a vítima foi surpreendida pela banalidade.

Foi tudo o que li, nessa manhã do dia primeiro, num jornal de folhas bem brancas – dobei-o, larguei-o sobre a mesa –, tentando ver uma cor de paz onde não há.

Lazarus Silvestre

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