O Reino da Bruta Deselegância

o reino

 

O Reino da Bruta Deselegância

“O poeta não escapa a história,
inclusive quando a nega ou ignora…”
Octávio Paz (Signos em rotação, p.55)

 

           Costumo escrever sobre teatro, através dessa arte vejo a impotência dos humilhados, a gélida manipulação dos comandantes das fábricas da maldade, enxergo, sobretudo, o pavor da violência insólita das microscópicas atrocidades. Contemplo, nas entrelinhas, refinadas docilidades que a vida trás: o som alegre das asas de uma abelha, o gozo da gargalhada que só os bufões promovem, a suprema magia de uma bem tecida cena.

         Hoje, porém, nada tenho a declarar sobre a arte. A realidade que se impõe de forma grotesca sobre a nação, exige, uma visão cênica mais ampla que vai além dos limites do palco, uma carpintaria teatral mais complexa, como se o País fosse um tablado tosco, onde construímos a dramaturgia da intolerância, onde o desrespeito e a estupidez povoam a boca dos engravatados, mas também, do cidadão comum que se acredita politizado.

          Brasil dos parvos, que rosnam nos quatro cantos contra a ladroagem, esquecendo-se de suas pequenas e grandes corrupções. Terra de fanáticos e fanatizados, que desejam a morte dos filhos de Deus em virtude do livre direito de amar a quem melhor lhes aprouver. 

Nação onde a imprensa, a polícia, o Congresso Nacional, o Poder Judiciário, o Governo, as empresas públicas e privadas e até o povo é visto com desprezo e desconfiança.

          Quem são os inimigos? Quem são nossos heróis? Alguém pode apontar com relativo grau de segurança essas categorias? O que mais nos assusta é a descortesia e brutalidade reinantes. Já não se constroem pontes dialógicas, não se pavimentam mais estradas para o futuro, cada qual que engula, e não vomite, as crenças, valores e certezas dos seus concidadãos. 

          O que restará após a tempestade? O ódio e a angústia erguerão alguma vida em plenitude?

          Através das sombras desse tempo, além das agremiações partidárias, igrejas, siglas, estéticas, ideologias e objeções, algum ouvido deve escutar uma palavra, um olhar subirá a ladeira da época rude, postando-se no ápice de alguma elegância. O vir a ser depende disso, apesar dessa tremenda e infame falta de comunicação, sempre sobrará um momento para sentirmos um breve e suave toque de mãos.

           Através desse concreto que se avoluma, em qualquer lugar desse imenso projeto de Nação, profetas sopram sementes no deserto.

 

Adriano Abreu

Dezembro 2017

Publicado em: Adriano Abreu, Colunistas

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