Marcílio Rangel

Marcílio Flávio nasceu em 1956, em Taperoá, na Paraíba. Em 1978, ele veio para Teresina e tornou-se professor de Matemática do então Patronato Dom Barreto, criado em 1945 pela Congregação das Irmãs Missionárias de Jesus Crucificado. Assumiu a direção do Instituto Dom Barreto, em 1983, a convite das Irmãs Missionárias. Com seu jeito carinhoso e cheio de gentileza, transformou o IDB num projeto que vai além do pedagógico, transformou tudo e todos que fazem parte da comunidade dombarretana em uma grande e inestimável família. E teve uma importância enorme para a cultura e educação do Piauí.

Nome Completo: Marcílio Flávio Rangel de Farias

Descrição: Professor, educador e ex-diretor do Instituto Dom Barreto

Data de Nascimento: 17/08/1956

Local de Nascimento: Taperoá-PB

Data de Falecimento: 10/05/2006

Local de Falecimento: Teresina-PI

Biografia do Professor Marcílio por Maria do Socorro Rangel. Teresina, 16 de agosto de 2006. (véspera do dia que o prof. Marcílio completaria 50 anos)

“O nome deste menino lindo é Marcílio Flávio Rangel de Farias. Em pequeno já era assim como se pode ver nos seus olhos: sério e doce; tímido e forte. Contrastes que a vida acentuou e que falam tanto do homem que não chegou a completar cinqüenta anos.

Com o que sonhava este menino hoje “suspenso na memória”? Provavelmente sonhava com o mundo que ele criou e que hoje só podemos celebrar.

Dele já se disse muitas vezes que foi grande, que foi forte, que foi bom, mas para nós interessa não esquecer com o que sonhava aquele menino. Sonhava ser professor e padre. Na juventude precisou com maior clareza seus projetos: queria ser professor de matemática e missionário e aprendeu a juntar estes lugares numa metáfora que traduz muito bem o impulso que o movia: “quero ser ponte”. Ligar, ou para dizer com maior precisão filosófica, RE-LIGAR.

Desde muito pequeno foi experimentando, o menino, as possibilidades desta motivação. Numa família de sete filhos ele foi o quarto, nem mais velho, nem mais novo, singular. Mimado pelos primeiros, cedo aprendeu a cuidar dos mais novos e logo seria o “coronel da brigada”, como costumava definir sua mãe. Carinhoso, comprometido com o bem estar de todos e muito inteligente o menino mobilizava todos para seus brinquedos e lá íamos, seus irmãos, todos, assistir aulas e missas – com a indispensável comunhão feita de miolos de pão que todos sabíamos só ele tinha autoridade para distribuir. De onde vinha a autoridade? Da conjunção de seriedade e doçura; timidez e determinação. Ponte era o que ele queria ser.

Doente desde criança, Marcílio nunca se permitiu acomodação, mas adorava ser acarinhado com os mimos de toda família. As tias “fechavam” a rua na pequena Taperoá para que ele pudesse dormir, e nunca nenhum de nós, irmãos e primos, achou injusto que ele fizesse seu lanche antes de todas as crianças da família. Com certeza porque ele recebia estes dengos sem esnobismo e sem desconsiderar os desejos daqueles que esperavam e, por isso, guardava um tanto de fome para partilhar depois. Ponte era o que ele queria ser.

Um dia ele encontrou Francisco, o santo de Assis, e se apaixonou. “Onde houver ódio que eu leve o amor; onde houver ofensa que eu leve o perdão; onde houver discórdia que eu leve a união;onde dúvidas que eu leve a fé; onde houver mentira que eu leve a verdade; onde houver desespero que eu leve a esperança; onde tristeza que eu leve alegria; onde houver trevas que eu luz…” Ponte era o que ele queria ser.

Cedo ele aprendeu que sua paixão exigia investimentos contínuos, permanentes, insistentes e, por isso, cedo começou a trabalhar. Foi professor e franciscano desde então. Para ser um professor estudou com rigor e disciplina, mas tinha os olhos sempre abertos para o que estava além dos conteúdos e dos métodos, tornou-se um leitor voraz. Tudo interessava àqueles olhos cuidadosos: todas as ciências, todas as artes, todas as pessoas…Para ser um professor- franciscano aprendeu a exercitar a tolerância e a amar a diferença e transformou este saber em “massa” para se modelar e modelar o mundo ao seu redor. Ponte foi o que ele passou a ser.

Para cumprir sua sina escolheu, lá pelo final dos anos setenta, o chão, o céu e o povo de Teresina e foi com eles que Marcílio começou a modelar um novo mundo, um mundo onde o professor da escola pública trabalhava com o mesmo afinco que o professor da escola particular. Se faltava giz e papel, ele somava; se sobrava recursos ele potencializava-os. Bom matemático aquele franciscano! Nunca nenhuma desatenção, nunca nenhum descompromisso – não com seus alunos! E foi assim, no “miúdo” do cotidiano, que ele foi se constituindo esteio e suporte. Ponte foi o que ele passou a ser.

Muitas e muitas vezes o corpo fragilizado parecia que ia impedir a realização do sonho, mas quem podia com aquele menino? Ele driblava a morte e insistia em viver! Viver para continuar sonhando. Viver para fazer de cada vitória contra a morte uma luta para dilatar e expandir sua busca pela excelência. Mas que excelência? Aquela que ele sabia partilha, conquista e renovação. Foi assim que foram se consolidando seus projetos e suas muitas parcerias, tão plurais quanto indispensáveis. Tão indispensáveis quanto provocantes. Ponte foi o que ele passou a ser.

No início dos anos oitenta, as irmãs Missionárias de Jesus Crucificado lhe propuseram uma missão: o Instituto Dom Barreto. Fabuloso desafio para o menino sonhador! Agora ele tinha nas mãos, para misturar à sua “massa”, o cimento de uma tradição cujos “elementos” constituintes eram a ética, a caridade e a doação. Cimento? Fermento! Fermento que alimentou muitos outros e, particularmente, as irmãs do professor Marcílio: Stella, Márcia, Bernadete. Depois veio o resto da família, Sebastião, Euzir e Eustáquio e, muito recentemente, Socorro. A este coletivo familiar se acoplaram muitos outros, de “dentro” e de “fora”, de “perto” e “longe”. Ponte era o que ele continuava a ser.

Ali também pelo começo dos oitenta, Natercia Damasceno provocou o amor e deste encontro nasceram duas meninas, Camila e Marcela. As meninas do professor, do missionário, do sonhador Marcílio. Com elas ele aprendeu que o amor já pode nascer sem limites, embora tenha também aprendido que este amor sem restrições, a exemplo de todos os outros, carece de cuidado, de investimentos e de deslocamentos. Ponte era o que ele precisava ser.

Ao amor que Marcílio dedicou a Camila e a Marcela ele incorporou muitos outros, também seus filhos. Isto, porque como já foi dito em um outro lugar, Marcílio não amava simplesmente, ele amava incondicionalmente, radicalmente, sem aceitar os limites que seu corpo ou sua alma tentavam lhe impor. Amava suas crianças com uma ternura e um comprometimento realmente admiráveis. Um amor tão exigente quanto plural. Ponte era o que ele precisava ser.

Foi para celebrar este homem e seus muitos amores que nos dispusemos a contar aqui um pouco da sua história, ainda que correndo o risco de,assim, violar o pudor e a discrição que sempre pautaram sua conduta. Nosso amparo é a certeza de que esta exposição possa ajudar a criar outras pontes e a nos inspirar o desafio de seremos, nós também, um pouco pontes.

Além disso, quase tudo que aqui foi dito já é de domínio público. Afinal, é provável que muitos guardem na memória a lembrança de vê-lo como agora, exposto. Ou seja, beijando a cabeça de uma das suas muitas crianças com delicadeza e com um incrível despojamento. Também é provável que muitos de nós já tenha tido notícias de sua cólera ou seu desespero frente a uma criança ferida ou desamparada. Nesses momentos, seu olho azul resplandecia atingindo todos ao seu redor. Era assim mesmo radical o professor Marcílio! Para ele, tudo aquilo que se referia às suas crianças era de uma outra ordem. Falo da beleza, da alegria, do amor, mas também da fome, do desamor, e da dor. Na sua defesa ele foi incansável; no seu cuidado, intransigente. Nunca nenhuma hesitação: rigidez inquebrantável numa arquitetura feita de fogo e ternura. Ponte é o que ele foi; ponte é o que ele sempre quis ser.

Acho que é daí que nascem, paradoxalmente, sua calma e sua impaciência; seu rigor e sua doçura, contrastes que a “lenda” se esmerou em ressaltar. Para além da lenda é preciso pensar na impressionante constância de propósitos deste menino que gostava de sonhar com um mundo onde todas as crianças pudessem ter uma vida feita de sim. Sim para a alegria, sim para o amor, sim para o saber, sim para uma vida digna e plena de possibilidades. SIM! SIM! SIM!”

Depoimento de Noé Filho para o Professor Marcílio.

“Fico pensando o que seria da minha vida sem ter a oportunidade de estudar no Instituto Dom Barreto e conhecer o Professor Marcílio. Uma oportunidade que possibilitou várias outras oportunidades e, sobretudo, me deu autonomia, a mesma defendida por Paulo Freire, outro grande educador, para construir o meu próprio destino. Simplesmente porque no IDB aprendi muito mais que o ferramental técnico que estava habituado nas escolas que frequentei no interior do Piauí. Aprendi a aprender. Aprendi a pensar.

Com um cuidado único com todos seus alunos, sabendo inclusive o nome de todos, era comum chamar alguém em sua sala para entender o porquê de notas ruins, perguntar se estava acontecendo algum problema ou simplesmente para conversar. Na 5ª série, ainda novato, foi fantástico o zelo e a atenção que dispendia a mim, sabendo que seria complicada a minha adaptação à realidade e à alta exigência do ensino do IDB.

Acredito que assim como ele foi decisivo em minha história, também mudou a vida de muitos outros piauienses: alunos, professores, funcionários, pais e artistas. Além de tudo, o Professor Marcílio foi um dos maiores fomentadores da cultura piauiense, tanto patrocinando apresentações de artistas locais na escola, como incentivando a produção cultural do Estado. A Escola Madre Maria Villac também é símbolo da generosidade e visão do Prof. Marcílio. Uma escola,  que conta com o mesmo método de ensino e os mesmos professores do IDB, para crianças da periferia de Teresina.

Fica a lembrança do aperto de mão firme. Do perfume forte. Dos chocolates e dos melzinhos. Do cuidado. Fica a lembrança do educador que semeou brilhantes amanhãs e que aos poucos já colhe brilhantes presentes. Dombarretanos que continuaram no Piauí e dombarretanos espalhados pelo Brasil e pelo mundo, que destacam-se em suas áreas de atuação e que têm consciência de seu poder de transformação da sociedade.”

Depoimento de José Vicente para o Professor Marcílio.

– Pai Marcílio!! Pai Marcílio!! Pai Marcílio!!

Era esse o coro que se ouvia em grande intensidade de crianças de variadas idades quando o professor Marcílio chegava à Casa Dom Barreto, normalmente à noite, depois de um intenso dia de trabalho no Instituto Dom Barreto. Sabia-se de antemão que era ele apenas pelo seu jeito impaciente de tocar a campainha. E em seguida formava-se grande fila de meninos e meninas para abraçar e tomar a bênção daquele homem tão rígido e ao mesmo tempo tão amoroso e tão amado.

Aos 13 anos, vindo do interior do Estado, de início não conseguia entender aquilo tudo, mas bastou uma semana na Casa para entender o que aquele homem representava para cada um daqueles meninos e meninas e passou também a representar para mim: um Pai! Um pai que não media esforços para conseguir garantir o melhor para seus filhos, especialmente no quesito educação, visto que era aquilo que ele achava que podia fazer a diferença e fazer convergir tantas diferentes histórias de vida (algumas muito tristes) para um ponto bom, que para a maioria deles seria provavelmente inalcançável. Ao mesmo tempo era bastante rígido e cobrava muito de cada um de nós que se superasse e tentasse a cada dia melhorar, sendo que essa cobrança era muito individual e respeitava os limites e as delicadezas da história de cada uma daquelas crianças.

Essa é a imagem que guardo do professor Marcílio: a de um exímio educador com uma capacidade infinita de ajudar, entender, buscar e ensinar a cada um a crescer e desenvolver o seu melhor, mesmo quando parecia impossível para a maioria das outras pessoas.

José Vicente de Castro Silva, médico intensivista, ex-aluno do Instituto Dom Barreto e ex-morador da Casa Dom Barreto. Orgulhosamente, um dos milhares filhos do pai Marcílio Flávio Rangel de Farias.

Depoimento de Amanda Holanda de Anchieta para o Professor Marcílio.

Entrei no IDB em 2008, estudei lá durante sete anos e trabalhei como monitora durante um ano e meio. Não conheci o professor Marcílio pessoalmente, mas o sentimento da sua presença na escola é inegável. Ele está em todas as partes, seja nas histórias sobre ele contadas pelos funcionários, como nas suas fotos espalhadas por toda a escola, ou na rigidez da educação e das broncas, porque “se fosse o professor Marcílio faria dessa forma.” Ele deixou sua marca em cada cantinho do IDB, e tenho certeza, que sente muito orgulho, de onde quer que esteja. Professor Marcílio Rangel? Presente!

Poesia de Graça Vilhena para o Professor Marcílio.

Sábado

os mendigos tinham nomes

as casas muros baixos

e quando os rios se alargavam

barrentos de chuva

muitos de nós andávamos pelas ruas

em roupas alvas

passadas de dor

contaminados pelo infortúnio

dos alagados

e assim crescíamos

sem nojo e medo

no tempo em que a cidade

cabia inteira

nos braços de Deus

Fotos e Ilustrações 

Fontes

http://dombarreto.g12.br/portal/?p=12202

http://dombarreto.g12.br/portal/?p=160

 

Última atualização: 23/10/2017

Caso queria sugerir alguma edição ou correção, envie e-mail para geleiatotal@gmail.com.

 

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