Da tarde e da noite, Lazarus Silvestre

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“Essa é uma horta tão abandonada”, sempre diziam aqui desse lado da janela. Como um costume de raízes profundas, a pequena horta pintava a terra de sementes.

O único som da casa vinha do apito do trem, a uns cinquenta metros.

As luzes em casa bem apagadas. Eram cinco e meia da tarde.

Para as horas assim valia a música que tocava na ponta da torre. Era uma lembrança mais viva e colorida: um carro azul – um opala –, com o chassi tocado por uma grama que atravessava pedras de calçamento, sublinhando o carro com um tapete de gramíneas.

O radialista anunciava a hora certa, todos os dias: “Aqui, às cinco horas, na rádio do Bochecha”. Eu ainda era criança e frequentava o reforço escolar da tia Socorro. Era a hora de irmos embora e a gente ficava na rua, sentados na calçada, ouvindo as músicas.

Mas aqui o silêncio. Nem lembro sempre. Essa memória perdida, sem referência de sentimentos.

Em tardes assim, mamãe chegava do trabalho; papai trazia o jantar. Os dois bem velhos hoje, cabelos brancos. Eu também.

Acendi um cigarro, puxando um punhado de areia dos jarros das plantas.

Acho que tinha nove anos e no ano passado foi cortado o limoeiro seco e espinhoso, mas o costume das plantas vivia toda manhã quando papai limpava a areia seca e fazia chover nas rosas e samambaias suspensas no quintal.

Sentei-me numa das cadeiras brancas, entre os jarros. O que não canta, nem fala? O trem chegou, agora toca o sinal – monocórdico –, anunciando a partida da estação. Agora pergunto sobre o fazer poético. A folha em branco sempre a assustar.

Marina prometera ligar. Não. Medo do toque novo e preciso.

Entre a fumaça, via cascalhos pelo chão. Sentia a umidade do crepúsculo, uma criança sorria num quintal.

Minha ansiedade é pela falta de respostas. Nem o trem, nem as plantas dos jarros de meus pais, nem a lua e Vênus brilhando tímida, nem o silêncio do outro. Consegue calar as dúvidas?

Deixei sair fumaça pelas narinas, pela boca. Sinto uma dor no estômago e lágrimas que querem ser livres.

Já está bem escuro aqui em casa, um silêncio profundo e mortal. Nenhuma luz acesa, mas daqui a pouco as luzes dos postes fazendo lâminas de ouro no chão.

Um pássaro quieto e mudo no poleiro, encurvado, de olhos bem fechados.

Marina não ligou; os velhos não vêm mais e há tempos que o som da rádio vive em mim como lembrança fugidia.

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