Marisa, de Alisson Carvalho

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Foto: Vinicius Figueiro

Marisa era a dona dos lábios mais conhecidos do Complexo Cultural da Praça Pedro II. Não que alguém tivesse, de fato, provado daqueles músculos carnudos ou que algum vagabundo pudesse gozar de ter se aventurado naquelas curvas tão cobiçadas. Por sua invencibilidade e imponência, fora muitas vezes chamada de puta e outras injurias inatingíveis e insignificantes para a moça.

A mulher misteriosa geralmente estava enfurnada no Cine-Rex, nutrindo a imaginação da sociedade tradicional teresinense, todos sempre famintos pelas ferinas novidades. Curiosa, Marisa descobrira, sem muito esforço, que o local fora construído em 1938 pelo… Ela tentou ler, na placa de metal presa na parede, o nome rasurado, mas desistiu. O fato é que a pessoa teve a ideia de usar um modelo da Art Deco, um estilo consagrado na época de sua construção. Quem riscaria o sobrenome do arquiteto?

A segunda grande paixão de Marisa era o submundo dos cassinos, que era um lugar de socialização no qual aglutinavam-se quase todas as gerações desse período, era um amalgama etário nada construtivo. E quando ela chegava, nenhum homem ou mulher escondia o desejo de possuir o impossível, o amor da moça. Ela era a grande protagonista naquele local, talvez por isso a misteriosa mulher fosse alvo da atenção dos frequentadores.

O onírico rebolar temperou a paisagem no recinto, mas até o encanto tinha os seus limites quando comparado com o prazer de jogar. Já não importava quantas cédulas a roleta sorvia, pois somente quando vomitava moedas era que uma nova musa se materializava nos olhos dos observadores: a musa Sorte.

Certo dia Caio, um estudante qualquer, desviou-se da família e entrou desconfiado no cassino. Decidiu examinar o local, foi até o balcão e pediu um copo de uísque enquanto observava seus oponentes sem chamar atenção. Não que a sua virgindade como jogador fosse aparente, mas houve uma clara apartação entre o novato e os azarentos nativos. Infelizmente a tática de observar o habitat alheio não foi sua melhor estratégia e em quinze minutos sua presença se tornou motivo dos cochichos entre os jogadores.

O ritual de iniciação para a nova vítima estava quase pronto, bastava a primeira aposta e os cientistas da área saberiam se o novato tinha ou não as manhas do ofício ou se possuía o mistério da sorte. Os calafrios eram compartilhados entre os céticos que investiam muito tempo analisando o oponente com cautela e avaliando os resultados. Bastariam algumas jogadas do novato para que os círculos de afinidades se encarregassem de extrair um dossiê completo a respeito das habilidades do calouro.

O jovem tentou se infiltrar entre os apostadores, obviamente se equivocou considerando o garçom parte da sua zona de influência, como um parceiro, um confidente. E, sem motivo algum, Marisa se compadeceu com o rapaz e se aproximou antes que o forasteiro, movido pelo desespero, cometesse deslizes na vã tentativa de dilatar seu número de amizades.

O melindre do rapaz em se inserir naquele microuniverso ruiu com a aproximação de Marisa, pois despertara a ira dos admiradores da invejada mulher. Era como se os títulos, patentes e status fossem irrelevantes para atrair a moça. Estavam parcialmente certos, ela não ligava para as origens dos seus amantes.

O Ébrio olhar do rapaz ficou embaçado, sua mente foi perdendo o foco e começando a nutrir certa paixão pela moça. Seus movimentos foram espontâneos, frutos da ação do acaso enquanto a sua mente inexperiente percorria milimetricamente a pele da moça que perfumava e enfeitava aquele ambiente empestado com o cheiro de fumo queimado e uísque.

Tácitos, os jogadores mal perceberam a aposta do rapaz e somente quando a roleta parou de girar foi que todos encararam assombrados a maldita bolinha. O coração de Marisa quase saltou pela boca ao visualizar o número onde a bola repousou e Caio roubou um longo beijo da moça, agora com os lábios condescendentes.

A vitória foi suficiente para que a garota se tornasse o amuleto da sorte do novato. Boquiabertos com as jogadas precisas do garoto, os mais céticos tiveram que engolir a derrota. Caio ergueu uma garrafa de vinho e comemorou com a amante. Naquela noite somente o calouro faturaria  no jogo e no amor…

E apesar das expectativas alimentadas pela conquista do ganhador as anedotas locais descrevem Caio falido e frustrado, acordando despido de todo o lucro conquistado e desesperado para recuperar o que conseguira capitalizar na fatídica noite onde, entorpecido pela vitória, ignorou o comprimido diluído na bebida oferecida pela moça sem nome.

Autor: Alisson Carvalho

Livro: Rascunhos Líquidos

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