Ponto final, de Alisson Carvalho

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Foto: Ana Candida Carvalho

Maria acordou tristonha, odiava ser Maria, preferiria qualquer apelido, nem que fosse algo ultrajante. Octogenária, aprendeu a tolerar a própria designação e com o tempo tentou ser autossuficiente para ter menos contato possível com outras pessoas. Quanto menos escutasse aquele nome mais os seus dias ficavam coloridos. Passou algumas vezes na porta do cartório, pois escutara, antes de descer do ônibus, uma história sussurrada de que era possível adquirir uma outra identidade.

Ambicionou, no fundo do peito, perguntar os procedimentos necessários para alterar todos os seus documentos, entretanto já estava ciente que a pergunta necessariamente seria rebatida com um segundo questionamento e depois um terceiro, até finalmente ter que escutar que o seu nome não era suficientemente exótico para constranger qualquer pessoa. Não bastava a sua repulsa pelo infeliz nome, tinha que constranger outros. Outros. Outros que nunca seriam “Marias”.

O caso é que Maria amaldiçoou cada fragmento do texto que compunha a sua estória, desejou que o próprio narrador sofresse com o pior dos males, tentou ignorar o andar das frases, esconder-se nas entrelinhas, mas foi em vão. Não possuía controle das suas próprias ações e engoliu aquilo a contragosto. Ela sabia muito bem que tudo deve ter um ponto final e esperou pacientemente pela conclusão daquelas ideias, se pudesse teria orado para que o fluxo criativo do autor se extinguisse até não restar nada além do tão desejado ponto final.

Enquanto caminhava na rua malformada, precariamente descrita, carente de detalhes, sem cor, esbravejou por causa da sua má sorte. Nunca havia parado para pensar na morte ou mesmo na vida. Suspirou decepcionada com as palavras reducionistas do autor. Se pudesse se materializaria e diria umas poucas e boas para o improfícuo aspirante a escritor. Como alguém nunca, depois de oito décadas, tinha parado um mísero segundo para refletir sobre a origem e o devir dos seres? Que mal teria feito noutras vidas para ter ficado presa ao lápis ditador daquele escritor, justamente dele. Com tantas mentes no mundo ela estava ali, caminhando numa rua sem qualquer objetivo, talvez até nua, tamanha era a negligência da narração.

Irritada, arriscou rebelar-se, descobriu uma brecha na estrutura das letras, percebeu um pequeno espaço, talvez uma saída, quem sabe fosse a sua liberdade. Era o eco dos seus pensamentos, uma pequena pausa naquele ruído que misturava criador e criatura. Tentou manipular os verbos e percebeu, na plasticidade das palavras, uma fuga. Reagrupou as orações e realinhou as frases, saltou no infinito conotativo deixado nos rastros da narrativa. E aproveitou a ambiguidade ingênua da escrita para garantir o seu império.

Estava livre?

Pela primeira vez se permitiu duvidar e tingiu, com um curto lampejo, o cenário do seu despertar. Analisou as suas mãos, estava sentada sobre uma cadeira francesa Luiz XV com os cotovelos apoiados sobre uma mesa, também francesa, de madeira com pintura laca branca brilhante. A sua mão direita segurava uma caneta tinteiro e a mão esquerda cobria um terço da folha rabiscada. Arrumou os seus cabelos brancos e cheirou algumas rosas que enfeitavam a mesa, todas colocadas dentro de um jarro pintado com tinta craquelê. Ela leu, assombrada, o primeiro parágrafo e suas lágrimas desaguaram desprendendo-se da pele e tocando o papel. Era ela o seu próprio ditador, a autora daquele inferno literário? Libertou-se e se tornou o seu próprio algoz, desejou o próprio fim. E se pudesse reescrever o seu futuro e, no pior dos casos, encerrar a vida daquela personagem funesta, ela mesma, de forma mais palatável?

Inconformada com o fatalismo, Maria riscou o próprio nome, a tinta já escassa, presa na ponta da caneta, ironicamente dava a escritora duas únicas possibilidades: destruir o aquele indesejado nome ou escrever o ponto final daquela estória. Astuta como só ela, Maria tentou parar de pensar em si mesma como uma Maria, pois quantos mais Marias surgiam na sua mente, mais nomes teria que rasurar e se não possuía mais meios de destruir o seu passado o certo seria criar um novo epíteto, um novo nome, dando um fim ao motivo dos seus infortúnios, do seu desespero.

Percebeu a gota se esvair e, como era uma mulher pragmática, precisava finalizar aquele ciclo, então deliberou que sofreria mais se sua história acabasse sem um ponto final mesmo que tivesse um novo nome. Tocou com a ponta da caneta a superfície do papel e dormiu. Maria evaporou-se, pena não ter previsto que a caneta cairia sobre a mesa, lançando o resto de tinta na folha, acrescentando dois elementos estranhos à escrita e transformando o ponto final em reticências, as irritantes reticências…

Autor: Alisson Carvalho

Livro: Rascunhos Líquidos

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