O quarto vazio, de Alisson Carvalho

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Foto: José Ailson Nascimento

O silêncio. O cheiro de rosas emanava dos dois quartos, a porta, sempre aberta, dessa vez estava lacrada. Não se enganem, nunca existiu porta, todos sempre tiveram liberdade naquela casa. Porém, tudo muda. Antes os dias eram ensolarados, hoje as nuvens roubam parte da luz que invade as janelas. Não era o medo que repelia a família da ideia de entrar nos quartos, era o amor.

“Sou inocente.”

Um clarão invadiu o campo visual dos três jovens, não tiveram tempo para agir. Um deles fechou os olhos e, ainda incrédulo, desejou que fosse tudo mentira. Tinha essa estranha mania de cochilar durante a noite de trabalho e se imaginar acordando subitamente de um sonho. Quem já viu isso? Um sonho dentro de um sonho? Sendo um sonho, quem sabe fosse possível despertar, olhar para o lado e rir da bobagem. E ainda que o clarão parecesse real, não era possível precisar o poder criativo de uma mente.

“Eu sou inocente.”

Tinham algumas sobras de tecidos acomodados sobre o banco traseiro do pequeno carro, a bagagem não incomodava. Quando terminou de dobrar tudo e enfiá-los dentro da sacola escutou um barulho, seguido pelo impacto. Todo o trabalho de guardar os retalhos de pano foi em vão. Viu tudo ser lançado em todas as direções. Não era mania de arrumação, era um cuidado até maternal com o material artístico, como se fossem mesmo parte de si, era um filho. Enquanto organizava os retalhos ele pensou em costurar todos os pedacinhos e transformar tudo num grande vestido. Seria incrível apresentar uma vestimenta feita naqueles moldes, a desordem que ordena o que foi descartado. Um sulco de ar, criado pelo vácuo, lançou todos os retalhos para fora da janela do carro.

“Inocente.”

O chaveiro estava no bolso lateral esquerdo e mesmo assim Bel demorou para encontrar a chave do carro. Escutou a descrição da ideia de Júlio, de fato seria um belo vestido, pensou. Olhou para a pequena lembrancinha presa ao chaveiro: a imagem de Iemanjá. Riu, estava satisfeito. E, embora a profissão de produtor seja pesada, ele sempre saia feliz do trabalho. Olhou pelo retrovisor do carro, viu Jairo ainda entretido com o celular ou com algum pedestre que passava nas proximidades. Plugou a chave. Ligou o carro. Escutou um barulho, seus olhos foram ofuscados por faróis que estavam muito próximos, bem perto, não conseguiu reagir. Pensou em Jairo e Bel, sentiu um impacto esmagando seu peito, não foi a dor física, foi preocupação.

“Não tive culpa.”

A visão estava embaçada, turva e o corpo cambaleante quase não se sustentava. Ele foi salvaguardado pelos colegas que riam, talvez mais alcoolizados. Era dia de comemorar, gritaram. Danem-se todos, afirmaram. Jogaram o litro vazio de uísque no muro do “Alguma-coisa-buffet”, local do evento, e meteram o colega dentro do veículo. A chave do carro estava sempre visível, expor a marca do carro era o primeiro código social para definir o status naquele grupo, ou na sociedade, sabe-se lá. Foram exatamente dois minutos para conseguir plugar a chave e ligar o carro. Os colegas gritavam de longe “Bebezinho, bebezinho”, relembrando o fora dado pela anfitriã da festa ao compará-lo com um “bebezinho do papai”.

“Bebezinho é meu …! Eu me chamo Doutor Moura, ouviram? Doutor Moura.”

Gritou tocando no adesivo da OAB, grudado no vidro do veículo, que legitimava o título de bacharel recém adquirido. Embora faltasse muito para obter o doutorado era comum adotar essa partícula como parte do nome, expondo um prestígio inexistente ou afirmando um poder capenga para se apartar dos demais profissionais. Enfim, o que importa é que o então “doutor” conseguiu, a duras penas, ligar o seu carro.

“Foi só um copo, eu não tive culpa.”

O “doutor”, com toda a sua ciência, destruiu dois carros tentando sair do estacionamento. Despreocupado e rindo das vaias dos colegas, partiu do local antes que os donos dos veículos lesados pela imprudência do jovem notassem o estrago feito. Acelerou, pois era noite de comemoração. Recordou-se do fora dado e xingou a dona da festa. Acelerou, afinal estava finalmente livre. Queria uma música que melhor se encaixasse com aquele momento. O seu carro ocupava duas vias da avenida e ele ria, adorava invadir todos os espaços. O rapaz olhou para o som do carro e tentou selecionar uma música, mas sua visão e mira estavam deficientes. Quando conseguiu ligar o som percebeu um obstáculo no seu caminho.

“Eu sou a vítima dessa história.”

A ligação assustou o casal. Correram para o hospital. Ninguém está preparado para um acidente. A mãe pressentiu o pior, disse horas antes para o filho não sair, acordou alguns segundos antes do telefone tocar e sentiu um calafrio ao escutar as palavras fatídicas. Arrumaram-se agilmente e saíram. Eles chegaram desesperados no hospital, avistaram o filho com um pequeno hematoma no rosto, abraçaram-no. Perguntaram pelo estado do veículo e o “doutor” tentou descrever, ainda alcoolizado, o prejuízo causado no acidente. No final do corredor algumas pessoas choravam desesperadas, ignoradas pela família Moura.

“Assassino!”

Alguém gritou, rompendo o silêncio atormentador. Todos no recinto com aquele dress code cuja homogeneidade excessiva mais lembrava um rebanho, usavam, na maioria, ternos cinza de lã fria e camisa de algodão egípcio. Parecia tudo combinado, até o juiz observou o estranho fato com seu bom humor ácido. Duas famílias choravam. Jairo, mesmo debilitado abraçou o pai dos amigos falecidos, todos estavam agrupados no mesmo quadrante do recinto observando, descrentes, o discurso inverossímil do algoz do crime. A mãe não suportou e gritou, no ápice da dor, a sua sentença, a conclusão dada pelo fato concreto, pela morte dos dois filhos, Júlio e Bel. Fora do tribunal todos concordaram e gritaram:

“Assassino!”

A mãe dos irmãos sentou-se na velha cadeira do quarto, olhou os quadros pintados por Bel. Cheirou uma das camisas do filho. Era a criança mais divertida da casa até chegar Júlio com o seu grande carisma. Eram o orgulho da família, estavam destinados a coisas grandes, eram grandes. Arrependeu-se de tudo que não disse, do amor não expressado. Criou coragem para entrar nos quartos, mas jamais imaginou ser invadida por tamanha dor. As lágrimas caíram despudoradas, pegou o lençol do seu pequeno Bel e cheirou tentando reter o pouco que restava do filho. Quem alegraria a casa? Quem adornaria os dias? Quem nutriria seus sonhos? Apoiou suas costas na parede e se permitiu cair no chão, agora não tinha mais a assistência emocional dos filhos. Todos teceram mensagens lindas, todos presentearam com as melhores palavras e ainda assim nada preenchia aquele buraco no peito que só crescia.

Ninguém a ensinou as manhas das despedidas, ela só aprendeu que os filhos nascem e roubam um grande pedaço das mães, um pedaço do peito chamado amor. Imersa na dor, seus olhos avistaram uma frase escrita na parede do quarto pelas letras dos filhos, uma obra conjunta, considerada brega no ato da feitura, mas que agora, na leitura do olhar daquela mãe, tornou-se uma obra poética, significativa.

“Ainda que as luzes se apaguem, mesmo que quebrem as lâmpadas, continuaremos existindo. O brilho de um sonho é energia que não se esgota, por isso brilhamos.”

Autor: Alisson Carvalho

Livro: Rascunhos Líquidos

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2 comentários em “O quarto vazio, de Alisson Carvalho Deixe um comentário

  1. Teatral e cinematográfico! Tempos em trânsitos asfálticos cotidianos.Tempos ritualístcos modernos urbanos onde se entrelaçam vidas, mortes, comerações, juventudes, travessuras e cáustica solidão.

    Curtido por 1 pessoa

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