O beco, de Lazarus Silvestre

becoescuro

Era quase manhã cedo e a matriarca da pequena família decidira – definitivamente – mudar-se. Já aquele endereço, aquela localidade não favorecia com nenhuma comodidade e nem mesmo obedecia a uma logística eficiente já que o centro de grande comércio era lá do outro lado da cidade.

O outro fator era que os dois pequenos já precisavam de espaço acolhedor, de um ambiente doméstico aconchegante e sereno, ao fato que, ali, não se podia desfrutar das bonanças de um lar.

A mãe olhou aquela luz tenra da manhã, um dia ainda entre madrugada cinza e fumaça de carro numa revoada de buzinas ao fundo. Levantar para ensaiar um café – ou pensando haver possibilidade – e foi pela sombra projetada no janelão de plástico que viu as duas crianças juntinhas, deitadas quase uma dentro da outra. Sentir pena, e o chão pequeno demais, e viu que o mundo era maior.

“Antônio, vamos sair daqui”.

“An? Que foi?”

“Embora! Vamos embora dessa porra”.

Ao seu lado, aquele homem parecia dormir ainda e já nas lamúrias. Recostou-se numa montanha de sacos plásticos e pedaços de caixote. Arrumou o cabelo macilento, tirou meleca do nariz e dos olhos. Quando percebeu onde estava, meio desperto, meio atento, saudoso para a vida, catou debaixo da bolsa marrom seu pacote de fumo e, enquanto a mulher derramava-se em desaforos, ele queimava as sobras daquele fumo empedrado e cristalino.

Lá fora uma frota de caminhões e carros e ronco de motores, e ela foi bater na cobertura do vizinho, perguntando se havia algo de comer. Procura que tem alimento para si e os seus. Foi de porta em porta, chutando, batendo, fazendo força e careta. Da casa branca veio sobras de refeição. Repartidas.

Não dá mais essa necessidade, não dá. É uma cidade grande, e essas crianças? Guardava o embrulho numa folha de jornal achada no chão, e cambaleava para casa. Grupo de pessoas amontoadas, próximas do lixo que crepitava já àquela hora da manhã para acalentar fim da madrugada. Dois amigos deitados no chão, em posição fetal, com as caras topadas no esgoto. E mais um grupo ou outro que compartilhava um cachimbo, formando um núcleo de fumaça fedorenta.

Passou pela porta de lona, atirou o embrulho de jornal no seu colchão, ao lado do seu homem, que sorria abobalhado, os dentes podres e escuros saltando pelas gengivas, e começou a catar todo tipo de entulho que pudesse lhe servir. Ela foi até as crianças, a dois metros do seu braço, sacodiu os pequenos, que estavam embrulhados em roupas longas e puídas e de gorros na cabeça. Chamou com afago, com delicadeza. Num desperto de tontura, sorrindo pra mamãe, bocejos nas bocas fedidas e gordurosas. Esse chão é pequeno demais e o sol me invade o teto, como uma trilha de lindos vagalumes.

Lá fora um estouro de bomba. Sentiu pés apressados cruzarem seu terreno, sentiu um clamor que vinha da rua. Estouros seguidos, gritos de ordem: outro despejo. Uma multidão cruzou seu olhar através da janela de plástico. Um pé desastrado e agora toda sua intimidade à mostra, os cantos no chão. Sentiu cheiro de pólvora, ao longe, grupos armados, e vizinhos em desespero.

Ela chutou as pernas do homem estirado no colchão, que não via aquele frenesi. Percebeu-se sem escolha: pegou as crianças no colo e acompanhou a pequena diáspora que se dispersava aos tiros. Era hora de mudança? Agora forçada. Corrida com a multidão de mendigos, esses nus, outros na sorte de levarem seus papelões e lonas, outros batiam cabeça e muitos, muitos sentavam e acendiam seus cachimbos nas calçadas ardentes. Ela? Só via onde o sol acendia, pisando com o pé sujo no chão de um beco.

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