Morte e responsabilidade

Alex Atala mata uma galinha ao vivo num evento com a camisa escrita Death Happens (Morte acontece). Paola Carosella leva uma vaca viva ao masterchef e dá um discurso sobre responsabilidade de se alimentar de carne. Ivan Ralston, Ale Forbes e outros usuários do instagram postam fotos de animais mortos crus ou assados com a cabeça. A repercussão sempre é negativa.

Vamos ao supermercado e encontramos carne em bifes ou outros pedaços que mal identificamos como um animal. Temos dificuldade em comer vísceras e animais inteiros com a cabeça. Isso se deve a identificarmos em nós aquelas partes e reconhecermos que uma vida foi tirada para podermos nos alimentar. Queremos cada vez mais nos ausentar dessa responsabilidade.

O processo de matar um animal é muito cruel. Hoje temos a chamada “morte humanizada”, mas basta pesquisar um pouco e encontramos a crueldade que é a criação animal para o abate. Animais confinados em espaços minúsculos, forçados a comer (na produção de foie gras o animal é alimentado por um tubo enfiado em sua garganta, por exemplo) e por fim o abate. O livro “Pelas quebradas, várzeas e chapadas” descreve o processo antigo, mas ainda muito praticado no interior, de se matar um porco. Primeiro o acertam com uma marretada na cabeça para depois enfiar uma faca em sua garganta.

O consumo atual de carne é muito alto. Antigamente chamado de “mistura” devido a carência desse insumo na alimentação dos escravos, hoje há uma fartura e quase todo mundo consome um pedaço de carne nas refeições e, dependendo do poder aquisitivo da familia, até maior do que carboidratos e verduras. No nosso arrumadinho vai maria isabel, paçoca e creme de galinha, os três contendo carne. Também valorizamos muito os pedaços chamados “nobres”, chegando a diferenciar carne de primeira de carne de segunda, quando a nomenclatura correta é carne dianteira e traseira. Nem tudo é picanha e filé mignon, precisamos tomar consciência que, se vamos matar um animal, precisamos utilizar todas as partes dele, e cada uma tem seu modo de preparo mais adequado. Mais do que valorizar uma comida que surgiu da resistência, o ato de comer preparos como a panelada, o sarapatel e a buchada são formas de melhor aproveitamento do animal que morreu por nós.

*Cairo Rocha (www.instagram.com/cairorocha) é gastrônomo, formado pela Estácio de BH. Atualmente cursa pós graduação em gastronomia na Facid. Teresinense, aficcionado por comida e pela cultura local. Na cozinha procura alcançar o tempero de sua avó, sua principal inspiração

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