O Trabalho do Diretor Como Ação Dialógica

dialogo 3

 

O Trabalho do Diretor Como Ação Dialógica

 

 “A minha convicção agora é muito sólida.
Por algum tempo eu não fui assim. ”
Johann Pestalozzi

 

           No Coletivo Piauhy Estúdio das Artes, a principal tarefa do diretor (ou encenador como queiram), em suas interfaces, como pedagogo e criador, é suscitar, propor e coordenar dialogicamente, os artistas envolvidos no ofício de criar, num permanente encontro com estéticas, dúvidas, visões e perplexidades. Estimulando nesses agentes “Estados Criadores”.

          Antes de qualquer polêmica inútil, gostaria de esclarecer, que não enxergo diferença ontológica entre os termos diretor e encenador (apesar de alguns afirmarem que elas existam), em detrimento disso, usarei os dois indiscriminadamente, realizando este devido esclarecimento, não ferirei suscetibilidades.

         Outro ponto digno de nota são as questões do pedagogo-diretor e, diretor-como-criador. Denominações que utilizo neste colóquio com intenções didáticas, já que essas funções são indissociáveis, realizadas pelo mesmo sujeito, na multiplicidade dos processos cênicos.

        Célestin Freinet, educador francês, declara que é preciso semear nos indivíduos, dentro dos grupos de trabalho, uma vontade da criação: “(…) Se os ATUANTES (grifo meu) não tem sede de conhecimentos, nem qualquer apetite pelo trabalho que você lhes apresenta, também será trabalho perdido enfiar-lhes nos ouvidos as demonstrações mais eloquentes. Seria como falar com surdos. Você pode elogiar, prometer ou bater… Os cavalos não estão com sede!”, ou seja, a equipe criativa e, os entes que a compõem, ainda não se encontram prontos, a qualquer ato artístico autentico, entre outras palavras, o Estado Criador não se instalou no ato teatral.

         Partindo da nossa investigação pessoal, podemos afirmar, com razoável segurança, a existência de determinados princípios essenciais que fundamentam o metier do diretor teatral, entre eles, gostaria de frisar:

– Aceitação crítica das condições materiais e humanas colocadas à sua disposição para consecução da obra de arte, somados a um esforço continuo e gradual para transformação dessas condições.

– Compromisso moral e intelectual com a mensagem que deve ser (re)passada a sociedade de forma corporificada pelo conjunto dos objetos estéticos criados coletivamente.  

– Doação ilimitada (e amorosa) ao oficio de construir fenômenos teatrais qualificados.

– Aguçamento sensório-cognitivo, emocional e espiritual, relativos a todos os aspectos que interferirão, positiva ou negativamente, durante a construção de espetáculos, como também, na condução dos grupos em situação de formação continuada.

– Solidez estética, técnica e conceitual nas propostas e projetos que realiza.

– Capacidade de liderar equipes criativas de forma democrática, mas não licenciosa, isso significa, uma enorme habilidade e autoridade na mediação dos conflitos, que acontecerão inevitavelmente, na condução dos trabalhos.      

         O encenador alemão Manfred Wekwerth resumiria boa parte do exposto sentenciando, que o diretor seria ao mesmo tempo um artista e técnico, “… em vias de afirmar o que talvez constitua sua mais profunda vocação: ser um educador popular”, para nós, um pedagogo-diretor.

         Hamartia é um conceito grego que significa erro de julgamento ou erro por ignorância. Nas tragédias gregas, uma forma comum de hamartia, era também o pecado contra a hybris (aquele orgulho ou excesso de autoconfiança que conduz os indivíduos a desobedecer aos avisos divinos ou a violar qualquer importante lei). A hybris conduz à queda inevitável como punição pelo excesso de vaidade do herói. O diretor-como-criador, uma das interfaces do ato de dirigir, tão importante, como a do pedagogo-diretor, tendo em vista, comporem a unidade indivisível do “ser diretor”, deve possuir frieza cartesiana na execução de suas invenções, ou seja, deve duvidar, metodicamente, da eficácia das suas soluções estéticas e conceituais, para não ser punido por desconsiderar a hybris.

          Único detentor da tradução exata da linguagem empregada pela equipe criativa no espetáculo, o diretor tornou-se, em muitos casos, a prima-dona do teatro. Guindado historicamente a condição de figura mítica do fenômeno teatral, o que o tornou, em muitos momentos, vítima da sua própria condição, evadindo-se da realidade, diante dessa constatação, como nos ensinava Eurípedes: “- Aquele a quem os deuses querem destruir, primeiro deixam-no louco”.  Embevecer-se com a própria criação ou com seu suposto status quo, para nós encenadores é, incontestavelmente, um ato de loucura. Neste caso, como antidoto para essa doença infantil da profissão, prescrevemos relações dialógicas a serem estabelecidas, pelo diretor-como-criador, de honesta e incondicional humildade com sua própria criação e, consigo mesmo em relação ao universo do teatro, pois será ele que pagará, até o ultimo seitil, pelas suas falhas trágicas.

         Métodos pétreos e regras inflexíveis são pouco eficazes para quem deseja enveredar pelo ofício de encenador, respeitando os princípios essenciais da dialogicidade. Isso não significa, em nenhuma hipótese, a falta de método. Conheço diretores que conseguem conceber trabalhos relevantes partindo de intuições e pura criatividade, no entanto, os grandes ícones da direção, sentem a necessidade, na constituição de metodologias como arcabouços teórico-práticos que os auxiliam, mas não os acorrentam, na invenção dos seus teatros.

       Diante dessa constatação, no Coletivo Piauhy Estúdio das Artes os nossos esforços como diretor estão voltados para duas frentes de atuação:

1° – A criação compartilhada de produtos cênicos que contribuam efetivamente para evolução do Teatro Brasileiro de Expressão Piauiense em todos os seus matizes, sem esquecer, naturalmente, a necessidade da convivência das nossas obras com o conjunto dos espectadores e tradições do Teatro Brasileiro. Isso implica, a necessidade de estabelecer, paralelos teóricos-metodológicos com os grandes pedagogos-diretores de todos os tempos, do Brasil e do exterior, bem como, aprofundar estudos e pesquisas, sistematicamente, sobre a produção teatral e cultural mundial, principalmente, a realizada no século XX e início do século XXI.

2° – Dedicação a “Formação do Atuante Numa Perspectiva de Completude”. Observando, as necessidades individuais de cada um deles, integrando-os as visões teórico-práticas que passam a fundamentar a vida do Coletivo.

      Essas duas frentes, que denomino de Movimentos de Ação Dialógica, sendo a primeira com o mundo sociocultural que envolve as artes cênicas e a segunda relacionada a formação dos atuantes (isso inclui outros artistas e técnicos como músicos, maquiador, iluminador, etc), constituem, o que podemos chamar de metodologia, que não é um fim em si mesma, mas uma possibilidade de compreender, agir e modificar realidades.

     Portanto, conhecer, socializar, organizar, implementar e codificar conhecimentos, práticas e atitudes, apesar de ser tarefa de todos os indivíduos da equipe, é obrigação do Diretor que incorpora a ação dialógica como método.

     Gostaria de concluir, com a contribuição milionária do poeta Manoel de Barros, que nos ensinou a importância das grandezas do ínfimo e, em seu magnifico poema “Uma didática da invenção”, o texto, nos dá quase sem pretender, uma aula perfeita de direção, a qual reproduzo alguns fragmentos:

“Uma didática da invenção” (fragmentos)

I

“Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:

  1. a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca
  2. b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer
  3. c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos
  4. d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação
  5. e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre 2 lagartos
  6. f) Como pegar na voz de um peixe
  7. g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.

etc.

etc.

etc.

Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios. 

II

Desinventar objetos. O pente, por exemplo.

Dar ao pente funções de não pentear. Até que

ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou

uma gravanha.

Usar algumas palavras que ainda não tenham

idioma.

III

Repetir repetir — até ficar diferente.

Repetir é um dom do estilo (…)

(…) VII

No descomeço era o verbo.

Só depois é que veio o delírio do verbo.

O delírio do verbo estava no começo, lá

onde a criança diz: Eu escuto a cor dos

passarinhos.

A criança não sabe que o verbo escutar não

funciona para cor, mas para som.

Então se a criança muda a função de um

verbo, ele delira.

E pois.

Em poesia que é voz de poeta, que é a voz

de fazer nascimentos —

O verbo tem que pegar delírio. (…)

      “Apalpar as intimidades do mundo” é a síntese, exata e perfeita, do que é assumir com maestria o sacerdócio da Direção Teatral e, o verso que inicia o último parágrafo, descredencia este ou qualquer outro ensaio sobre o tema.

 

Adriano Abreu

             Estação das Chuvas           

Publicado em: Adriano Abreu, Colunistas

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