O segurança

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Fotografia de Joseph Oliveira

Um disparo, apenas um disparo. Diferentemente do treinamento o sabor não foi tão agradável. As medalhas abstratas adquiridas com a excelente mira não pareceram mais uma dádiva, embora os risos e olhares de orgulho dos colegas demonstrassem o contrário. A pequena multidão formada se revezava tirando foto ora com o cadáver, ora com o justiceiro fardado.

O segurança sem nome poderia ser qualquer pessoa e era, não se sentia importante. Minutos antes alguém ordenou que trocasse de posto, ele agora ficaria na portaria principal do shopping e aceitou a transferência de bom grado. O segurança não precisou de muito tempo para entender a rotina de um shopping, começou a observar os grupos que frequentavam o estabelecimento e quanto mais se aprofundava na observação, mais gostava de evitar aquelas pessoas.

Por isso, ficar na portaria tinha lá suas vantagens. O hálito quente da cidade apartava qualquer transeunte, todos queriam se refugiar nas dependências refrigerada do estabelecimento comercial. O segurança não, preferia observar as flores, os pássaros e gostava de tentar enxergar a Potycabana e todos os esportistas que passavam como vultos no parque tão perto e longínquo. Imaginava-se levando a sua esposa e o seu filho lá.

Sim, lá do outro lado, não no shopping, mas no lado oposto, onde realmente existia lazer. Lá na Potycabana poderiam correr tranquilamente, não estariam sendo constantemente bombardeados com propagandas e produtos dos quais não poderiam nunca comprar. Isso soava bem, talvez o tal discurso convencesse a esposa e teriam um dia de lazer tranquilo, sem gastos.

Excepcionalmente naquele dia a rotina seria quebrada, a tranquilidade fora rompida por uma pequena confusão que teve início dias antes. A tragédia que estava prestes a acontecer começou numa dessas manhãs, quando dois jovens tiveram a infeliz ideia de complementar a mesada dada pelos pais furtando. Não quiseram perder tempo, tampouco brincar com a sorte e selecionaram um local para as atividades ilícitas, seria o shopping. O lugar mais propício para as atividades ilegais, afinal era perto do condomínio onde moravam. Tudo fora acordado e planejado, o produto do empreendimento alimentaria a gorda mesada que serviria para a compra de algum novo bem, nada específico, apenas para dar às suas vidas uma pitada de adrenalina.

O primeiro furto deixou como vítima a filha de um afamado empresário, tentaram divulgar as notícias, mas os criminosos eram também pertencentes à mesma classe social, o resultado foi um processo silencioso. No jogo do poder quando as forças se igualam elas tendem a se anular. Por isso, os menores infratores foram inocentados, mas o problema ainda persistia, pois todos precisavam de um culpado, alguém que incorporasse todos os temores daqueles personagens.

Com isso, depois dos fatos narrados, é possível entender melhor o aumento da segurança nas dependências do shopping nos últimos dias. A tensão era grande, não poderiam mais tolerar que o crime se repetisse. Embora as filmagens revelassem a verdade, ninguém se lembrou de verificar as provas antes de condenar o jovem baleado.

O segurança escutou a sentença pelo rádio comunicador, um suspeito passaria pela porta principal. A vítima usava paletó, tinha traços de vítima, portava-se como vítima e estaria fugindo do bandido que se vestia como bandido, portava-se como bandido. Não poderiam suportar que os seus clientes fossem ameaçados, mais para sustentar a boa imagem do estabelecimento do que por mero altruísmo.

Como o previsto, ambos passaram pela porta automática. O “bandido” saltou em cima da vítima e arrancou um envelope com algumas cédulas de dinheiro, o treinamento do segurança era bem objetivo, não tinha tempo para analisar a situação. A ordem veio pelo rádio comunicador: Atire! O segurança atirou, foi um tiro seguro, para imobilizar, pena que justamente naquele dia ele errou a mira, a bala penetrou os órgãos internos, alojou-se no coração.

Todos duvidaram do diagnóstico do médico que parecia tentar transferir a responsabilidade do hospital para o necrotério, mas era um médico e ninguém pode duvidar do parecer inquestionável do deus da ciência moderna. Todos duvidaram, menos a mãe do jovem que gritaria desesperada horas depois.

O segurança continuou com a arma empunhada, encarou o rosto ensanguentado do rapaz que tentava dizer algumas palavras, eram sons indecifráveis. Lembrou-se do falecido irmão, da descrição perturbadora da mãe que presenciara o assassinato do filho na porta de casa, dos gritos ensurdecedores, da multidão tirando fotos, do sangue espalhado, aquela marca de sangue que permanece até hoje na calçada. Recordou-se também dos policiais que declararam a vítima culpada de um crime que nunca existiu, a população que comprou a culpa manchando para sempre a memória do querido irmão.

Nas noites seguintes um pesadelo assombraria o sono do segurança, a lembrança dos olhos desesperados do “bandido”. O cadáver ficou pouco tempo jogado na porta principal do shopping, logo foi recolhido, ninguém chorou ou gritou pelo “bandido”. O segurança imaginou o choro materno tentando reanimar o filho baleado. Ele nunca contou para ninguém, mas escutou o “bandido” dizer a palavra fatídica que permaneceria na sua mente por muitos anos: “mãe”.

O assassinato tirou o sono do segurança, contudo lhe rendeu inúmeros elogios, uma promoção e a mudança de cargo. Pena que depois das benesses a família da vítima tivera a infeliz ideia de procurar nas filmagens do shopping, mediada pela justiça, dados que pudessem comprovar a inocência do parente assassinado, injustamente identificado pela narração como “bandido”. Acharam as provas e, como já foi dito, na disputa de forças o lado mais frágil é o mais atingido. Assim aconteceu, o processo foi transferido para o herói, o segurança.

De herói a bandido, dizia a matéria do jornal local. Em nota o shopping disse não ser condescendente com tal prática, que ninguém seria injustiçado e que o disparo partiu de alguém desequilibrado demais para exercer uma função tão importante. O segurança, agora prisioneiro, leu a nota. Questionou-se e percebeu que afinal ele foi um mero instrumento. A mão que dispara deve dividir a culpa com a mão que ordena? Desejou um abraço fraternal, imaginou-se correndo na Potycabana com o seu filho, mas após cumprir a pena não foi assistido por ninguém.

Os olhos tristes observavam a decoração natalina, aqueles enfeites e aquela data deveria arrancar do peito os sentimentos bons, mas só caiam lágrimas. Por um breve momento desejou que a bala tivesse ricocheteado e atingido o seu próprio peito, talvez o ferimento mortal cessasse com a cicatrização da ferida ou tirasse de vez aquela vida vagabunda. Culpou-se pelo pensamento e sentou-se no chão com a nova tatuagem invisível de ex-detento.

Autor: Alisson Carvalho

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