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Fotografia de Regis Falcão

Não, não diga que me entende, afinal você nunca vai saber como é nascer onde eu nasci, não venha tentar me acalmar, não invente desculpas, não quero a sua pena, não quero a sua compaixão, eu não pedi a sua condescendência. Eu só quero a lei, apenas a lei para todos. Por isso, não me venha com essas falácias obsoletas, não é o seu sangue que está espalhado pelo chão. Você não sabe o que eu estou sentindo, entendeu? Não me venha com esse papo, daqui dá para sentir o cheiro da pólvora na sua mão, denunciando o seu crime, o seu pecado.

Meu filho tinha apenas vinte anos, mal tinha passado na faculdade, era um meninote, um jovem sonhador, tinha grandes planos, não nasceu para ser vendedor, mas vendia com orgulho e era o melhor na sua função, dizia que amava o serviço e os amigos de profissão. Ele era maior do que tudo que eu já fui e mesmo assim sempre teve a humildade nos olhos, era o mais inteligente da turma, queria ajudar toda a família. Hoje ele saiu depois de pedir licença, ele era assim mesmo, transparente. Foi para mundo trabalhar para ajudar nas despesas da casa, conseguiu um ofício rápido e parou de estudar a contragosto.

Não quero seu conforto, afaste-se daqui, eu quero meu filho vivo, isso você não pode conseguir, não é mesmo? Sabe o que ele dizia? Ele amava a vida, saia com os amigos para jogar bola todo domingo, bem cedinho. Preparava o café sem fazer barulho, ele nunca quis incomodar. Pergunta por aí, seu assassino, pergunta se ele já fez algo de ruim, meu filho era melhor do que tudo que você pretende um dia ser.

Ele incomoda? Eu incomodo? Esse sangue incomoda? Esse sangue tem outra cor? É a cor?

Seus doentes, afastem esses celulares. Vocês estão todos mortos e nem percebem esse triste fato. São como urubus querendo sangue putrefato. Transformam a morte num espetáculo. Hoje ele me beijou no rosto antes de sair de casa, disse que seria um dia feliz, que tudo ia dar certo, fez o sinal da cruz, abraçou-me e riu antes de sair pela porta. Eu agradeci aos céus por ter um filho tão bom. Ele era a minha luz, o meu conforto.

Você levou a minha vida, tirou de mim tudo que eu construí de mais valioso, foi para ele que eu trabalhei, foi para ele que eu me esforcei e que eu superei as minhas dores. E agora o meu filho não acorda. Alguém, pelo amor de Deus, chama uma ambulância. Para mim ele sempre foi a minha criança. É um parto às avessas gritar sem escutar respostas, ele sempre tinha as respostas. Sempre.

Eu queria dizer, gritar, xingar alguma coisa. Poderia ter dito tudo isso, mas tudo foi tradução do meu pranto. Pedi ajuda com o olhar, um pedido vão. Ninguém pediu perdão.

Autor: Alisson Carvalho

 

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