O beijo roubado

IMG_20171118_125209_052Um ruído, o vento entrando pela janela, folhas do último outono apodrecendo no fundo do baú esquecido. Perdi-me divagando, quantas cerejeiras vi florindo? Cerejeiras não nascem no Nordeste, corrigi-me mentalmente, eram ipês amarelos. Sentei-me no chão, sobre o tapete empoeirado, observei as cartas espalhadas pelo quarto sem nenhum cuidado. Coloquei a cabeça apoiada nos joelhos, encarei-me no reflexo do pedaço do vidro estilhaçado, quebrar espelhos faz de você um amaldiçoado?

Isso explicaria tudo, uma maldição desalinhando os fios que insistentemente eu tentava tecer. Contudo, seria preciso reagrupar os fatos e alocar o evento gerador da minha má sorte num pretérito bem distante. Há quantos dias os vidros espalhados pelo chão feriam meus pés? Dois dias? Aquelas manchas coaguladas eram sangue? Quem sabe eu tenha quebrado uma fábrica de espelhos ao nascer. Ri de mim mesmo, quanta loucura, quantas hipérboles insanas.

Cabisbaixo, aproveitei o ensejo para observar a sola dos meus pés e tirar os restos dos cacos de vidros que ainda incomodavam. A verdade era que as feridas nem incomodavam, pois a dor maior suprime as dores secundárias. Aquela dor abstrata, que devorava o meu peito, turvava os meus sentidos e me deixava dormente enquanto eu arrancava da minha própria carne os fragmentos vitrais, tingidos pelo sangue, como quem extrai da terra pequenas pedras sem valor.

Quem eu era não estava nos reflexos destroçados, quem eu era deixou de existir. Há dois dias descobri o inevitável, fui beijado sem aviso e fiquei sobressaltado naquele quarto. Um beijo. Apenas um beijo e deixei que a maré de horrores se apossasse de mim, tirasse a minha paz. Aqueles lábios levaram com o beijo parte da minha essência. O Ladrão roubou um pedaço de mim.

Condenei-me, estava fadado a ser rejeitado pelo mundo. O beijo partiu do inesperado. Eu poderia ter me afastado, mas permaneci colado aos lábios da boca do desconhecido, ele riu e deixou o número anotado no pedaço rasgado do guardanapo. Refugiei-me no meu quarto, flutuei na cama antes de ser pelo sono alcançado.

Acordei pior, concluí que dormir perseguido pelos pesadelos é apenas fechar os olhos, simular descanso e camuflar o desespero. Não há conforto quando a mente pesa, quando se é perseguido pelo monstro de mil olhos. A brisa folheava as páginas do livro sagrado que estava acomodado sobre a mesa. O meu pranto devorou a fome, devorou a vontade de viver. Despi-me das roupas maculadas, gritei e ninguém escutou a minha dor. Dor fala? Se falasse quem escutaria? Atirei a bíblia contra o espelho enquanto me lembrava do beijo.

O universo preso na borda dos meus olhos caia concentrado em cada lágrima. Ri desesperado, senti o peso do livro sagrado pulsando no chão do quarto. Seria pecado? Ter gostado foi errado? Um beijo desprevenido, um beijo roubado, a barba tocando a nuca, o calafrio de se sentir vivo e o sabor, antes desconhecido, de estar apaixonado. Questionei minhas certezas, agora eu estava no lugar do alvo. Sabotei a minha própria sabotagem e tirei do bolso o pedaço riscado do guardanapo. Exatamente por isso sofria, por já saber o que queria e ter certeza que eu ligaria para retribuir o beijo roubado.

Há dois dias o número anotado mente, diz ser inexistente e eu recolho os cacos do meu eu despedaçado. Escrevi cartas, mas lembrei-me que sem o endereço elas nunca chegariam ao destino desejado.

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Autor: Alisson Carvalho

Foto: Sérgio Neto

 

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