O pregado e a valorização da cultura

A maria isabel surgiu quando as mulheres resolveram picar toda a carne e misturar ao arroz, pois  os homens, na maioria das vezes vaqueiros, se serviam primeiro na hora da refeição e acabavam pegando toda a carne, assim teriam uma distribuição mais igual entre homens, mulheres e crianças. As panelas de ferro, quentes e grossas, acabavam por deixar uma camada “queimada” no fundo, é o famoso pregado, que caiu no gosto do piauiense.

19_32_34_758_arroz_maria_isabel
Maria Isabel ou Arroz carreteiro, irmãos separados por milhares de quilômetros

O pregado é cultural, é o resquício de uma época sofrida, de resistência, assim como outros pratos como sarapatel e panelada, hoje muito representativos da nossa cultura. Gyselle Soares, piauiense no BBB8, entre uma das suas muitas pérolas soltou durante um jantar que queria o pregado do arroz e, como ninguém lá tinha conhecimento do que era isso, apenas riram, não conseguiam compreender o valor cultural ou a disputa pelo que fica ao fundo da panela.

Do outro lado do oceano, na Espanha, existe o primo do pregado, o socarrat. Mas desse ninguém ri não, todos os espanhóis conhecem e valorizam, fazendo os famosos arrozes: a banda e paella. O piauiense não sabe se vender, valorizar sua cultura e criar uma identidade cultural forte. Preferimos valorizar o que vem de fora e considerar nossos pratos típicos como comida do dia-a-dia, de casa. Precisamos reinventar, de forma inteligente, nossos pratos e nos integrarmos melhor a cozinha contemporânea. Mas isso é assunto pra um outro texto.

maxresdefault
Arroz a banda e seu socarrat, o primo “chique” do pregado

Diversos chefs renomados já incluiram a maria isabel em seus cardápios, como Alex Atala do DOM, Ana Luisa Trajano do Brasil a gosto e Fabio Vieira do Micaela. Esse último fez uma releitura do pregado com seu crocante de pregado. A maria isabel é um prato muito representativo da cozinha brasileira, só precisamos saber vender melhor. Seu primo, o arroz de carreteiro, é conhecido nacionalmente como ícone da cultura gaúcha, e as únicas diferenças são que é feito com charque ao invés da carne de sol e salsinha no lugar do coentro.

menu_piaui_capote_cozido_com_creme_de_milho_tostado_leite_de_castanha_e_crocante_de_pregado
Capote cozido com creme de milho tostado, leite de castanha e crocante de pregado

Devíamos seguir o exemplo dos mineiros, os quais sua capital também não tem mar (e de forma inteligente criaram o lema “se não tem mar então vamos pro bar”, sendo a capital brasileira com mais bares), e valorizar seus pratos simples (feijão tropeiro, frango com quiabo,…) e deliciosos assim como os nossos (panelada, paçoca, sarapatel, creme de galinha, capote cozido, baião de fava com porco, etc,…). Nossa comida é tão boa quanto a de qualquer outro lugar e precisamos dizer isso em voz alta sem que precise vir alguém de fora pra dizer e lucrar com isso, assim como estão fazendo com a comida da Amazônia.

*Cairo Rocha é gastrônomo, formado pela Estácio de BH. Teresinense, aficcionado por comida e pela cultura local. Na cozinha procura alcançar o tempero de sua avó, sua principal inspiração.

**Agradecimentos a Juliana Henrique, dos quais nossas discussões chegaram nesse texto, e Bruna Maria, que com seu TCC me trouxe maiores esclarecimentos.

Anúncios

5 comentários em “O pregado e a valorização da cultura Deixe um comentário

  1. Fala Cairo, blz?
    Rpz, sou também um apaixonado pela culinária piauiense e pela cultura local.
    Sobre a história do prato, vi uma época a notícia de um livro de um tal Enéas Barros de Teresina que contava a história. Segundo ele, a origem se dá por conta de uma homenagem dos escravos à esposa (Maria Isabel) de um comerciante famoso chamado Simplício. A homenagem era por que o mesmo era criador de gado e fazia charque, daí os escravos misturavam-no ao arroz.
    Talvez a adaptação para carne de sol tenha se dado ao longo do tempo, como muitas receitas (o processo de clarificação da cajuína, por ex.).
    Dá uma conferida: http://bit.ly/2yJZ0WU
    Essa “invisibilidade” de fatos culturais relacionados ao Piauí é endêmica. Difícil encontrar materiais a respeito da nossa história. Certo dia estava quase brigando com um cearense pela identidade da Maria Isabel, acredita?
    Gostei do texto e espero que continue a jornada!
    Abraço

    Curtir

    1. Ae Marllus, tudo tranquilo?

      A história da maria isabel, assim como de outros pratos como a feijoada por exemplo, é cercada de lendas, versões da senzala e da casa grande. Talvez as duas versões sejam verdade, porque não?

      Obrigado por sua contribuição!

      Abraços.

      Curtir

  2. O Ateliê do Chef fez um pregado de maria isabel na primeira edição do festival Maria isabel, adicionando nele caju ameixa e cubos de queijo coalho.
    Viva nossa Cultura.

    Curtir

  3. A gastronomia faz parte do cardapio tradicional de um povo de determinada região ajudando a preservar o bom gosto e as tradições culturais do lugar. Ao contrário do que a elite afirma que pobre não tem cardápio, tem sim, o povo pobre tem sim um cardápio de fazer inveja aos pratos da elite.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s