O tijolo ensanguentado

17097886_1255397947842655_4046218150525700802_oO sol rasgava com violência a escuridão, no chão as marcas de sangue pareciam dançar refletindo os primeiros raios solares. De onde vinha tanto sangue? Há muito não sentia o mundo girar, compreendo que ele está num eterno movimento de ir e vir, naquela dança quase imperceptível denunciada apenas pelo alvorecer dos dias, pela a rotação da vida, da terra. Por um instante pensei ter visto a felicidade. Olhei, sorridente, para os lábios do meu namorado. Dois homens abraçados? É errado abraçar, eu sei. Não podemos nos expressar abertamente, não podemos fazer o que todo mundo faz diariamente de forma bem mais extravagante, mas eu confesso que a sensação de conforto que eu sentia naqueles carinhosos braços me fazia querer burlar essa maldita lei não escrita.

Eram gritos? Não sei ao certo, só sei que o afago fora substituído por um impacto. Engraçado, no chão, coberto da lama formada pela mistura do sangue e da terra, foi que percebi o perigo que é amar. Embora perdido eu me encontrei nos gritos da única voz que, naquele instante, conseguia me acalentar. Eram berros, pranto, meu nome mergulhado num turbilhão de palavras que, mesmo agora, eu não sei distinguir. O líquido rubro era parte da fantasia de halloween? Se foi, eu devo ter sido muito feliz na escolha do repertório que acompanhou a montagem do figurino. Não, definitivamente não era fantasia, afinal não lembro de ter comprado feridas e hematomas.

Tentei me erguer com outras mãos, com a ajuda de outras vozes, com a força de outros corpos. Existem braços que nos sustentam na queda, não são muitos, mas existem. A mão agressora continuava tentando avançar e eu pude, enfim, olhar no fundo daqueles olhos ferinos. Eram os mesmos olhos que me perseguiam pelas ruas, eram os mesmos olhos que me condenavam, era um olhar que machucava diariamente sem nenhum auxílio de um projétil qualquer ou de algo cortante. Na calçada vi um tijolo embebecido de sangue, o meu sangue, um sangue comum, tão vermelho quanto qualquer sangue.

Eu não quis revidar, o tijolo ficou inerte, o único que parecia calmo, mas haviam vários tijolos espalhados, nos observando, poderiam ser facilmente confundidos com seres humanos pela insistência em não ficar inanimados. Alguns desses tijolos estavam fardados e pensamos que seriam o nosso abrigo contra o agressor, pensamos que seríamos por eles protegidos… Erramos, eles estavam tão inertes como a arma usada para agredir-me.

A dor ganhou outras conotações, não era estimulada apenas pelos cortes na pele, dessa vez o que incomodava era o silêncio, aquele vazio que ignorava toda a violência… Quantos tijolos calavam, transformando-se em cúmplices dos agressores? Quantos tijolos eram usados como armas? Quem será o próximo atingido por alguma outra arma mais letal? Mais letal? O delegado escutou tudo com o olhar de tijolo, senti-me ferido, desejei sair daquele lugar o quanto antes, era aquela a sensação de se sentir protegido? Não era agradável.

Ergui-me com dificuldades, mas consegui andar. Não importa o quão intensa seja a força que tenta tirar a minha quase liberdade, pensei, eu não vou ruir. Encarei o meu namorado, os seus olhos estavam mais úmidos que qualquer outro olhar, senti-me inclinado a não aceitar o abraço que ele começou a ensaiar. Que arma era aquela que deixava o medo macular o amor? Deixei-me ser abraçado e fomos fuzilados pelos tijolos fardados, pelo olhar do delegado e pelo agressor.

Autor: Alisson Carvalho

Foto: José Ailson Nascimento

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